Entrevista com Vandana Shiva
Vandana Shiva, indiana, vive num mundo bíblico, entre a solidez das tradições rurais e a embriaguez do progresso. Enquanto ela nos fala ao telefone, gira em torno dela uma megalópole lançada para o futuro, como Nova Delhi.
Mas, a poucos quilômetros de distância, os camponeses ainda vivem em casas feitas de barro e procuram salvaguardar as suas lavouras da invasão das sementes estandardizadas OGM. "Não subestimamos as casas feitas de barro, somente porque não são o último grito", diz ela. "São construídas para manter longe o frio do inverno e o calor do verão, economizando em condicionamento do ar. E por isso, também em emissões." A reportagem é de Elena Disi e publicada pelo jornal La Repubblica, 13-07-2007.
Nascida em 1952 numa aldeia da Índia do Norte, Shiva é laureada em física quântica, após haver estudado na Grã Bretanha e nos Estados Unidos. Em sua dupla alma de ecologista e cientista, a diretora da Fundação para a tecnologia e a política dos recursos naturais esteve na Itália a partir de 19 de julho, para participar da sétima edição do encontro de San Rossore quando concedeu a seguinte entrevista. Vandana Shiva esteve na Unisinos, a convite do IHU, quando participou do Simpósio Internacional Água. Bem público universal. Eis a entrevista.
Não lhe parece que a expressão "carbon free" [livre de carbono] esteja se tornando um slogan demasiadamente usado em publicidade?
É incrível, mas, as empresas que mais contribuem para as emissões de gás estufa, são, com freqüência, as primeiras a usarem marcas totalmente enganosas para os consumidores. Seria preciso usar com mais freqüência a arma da denúncia por publicidade enganosa.
Concentrando-nos em agricultura biológica e reflorestamento, criando pulmões verdes para absorver os gases serra emitidos pela indústria, conseguiremos criar uma economia verdadeiramente "carbon free"?
A expressão "carbon free" não é precisa do ponto de vista científico. O carbono e os seus derivados fazem parte da natureza e percorrem um ciclo que inclui plantas, solo, água, ar. Nenhum ambiente natural poderá jamais ser totalmente "carbon free", porque as próprias árvores e as plantas são feitas de carbono. O conceito mais preciso, ao qual devemos referir-nos, é aquele de uma "economia do carbono vital", que aponte para a redução dos combustíveis fósseis e para o respeito do ciclo natural deste elemento".
Como descreveria as pilastras de sua economia ideal?
Refiro-me principalmente à agricultura, que é o setor sobre o qual procuro intervir com meu movimento. "Navdanya", para a conservação da biodiversidade. A agricultura industrializada, praticada sem nenhum respeito pelas peculiaridades locais, consome dez vezes mais energia do que produz sob forma de alimento. Fertilizantes, máquinas agrícolas, sistemas de transporte dos produtos são fontes maciças de contaminação e de emissão de gás estufa. O fato de a agricultura industrializada utilizar sobretudo combustíveis fósseis só faz, portanto, piorar a situação. Os métodos de cultivo biológicos permitiriam reduzir em 60 por cento o anidrido de carbono emitido na atmosfera. Mas, os campos, em alguns casos, podem ser uma fonte de contaminação ainda pior do que as indústrias.
Aplicando a agricultura biológica, conseguiremos, talvez, tornar mais lenta a progressão da poluição atmosférica. Mas, inverter a rota parece quase impossível.
Se temos um tarro que perde água, a prioridade, neste momento, é tapar o buraco. Depois, além da produção dos mantimentos agrícolas, poderemos enfrentar também o tema de seu transporte. Consumindo localmente o alimento produzido, reduziremos a taxa de emissão de combustíveis fósseis causadas pelos meios de comunicação. E teremos nas nossas mesas alimentos mais típicos e diversificados, melhores e mais frescos.
A senhora nasceu e vive na Índia, um país que está se modernizando, mas que conserva um tesouro de tradições no campo agrícola e manufatureiro. Quais destas "tecnologias antigas" poderiam ser repescadas e conjugadas com o progresso industrial?
Eu repescaria sobretudo os alimentos esquecidos. Espécies vegetais que conseguem sobreviver em quantidades reduzidas de água e fornecem ao homem muito mais energia do que os cereais estandardizados que nos são distribuídos em ampla escala. Penso no milho e em tantas variedades de grãos e de arroz que hoje estão desaparecendo dos campos na Índia, porque os colonos não conseguem mais enfrentar a concorrência das multinacionais. Se eu tivesse que cunhar um slogan, eu diria que os alimentos esquecidos devem se tornar os alimentos do futuro.
Mas, isto pode bastar para frear a mudança do planeta?
Sim, porque permite adaptar a nossa vida às mudanças do habitat e do clima e, dessa forma, poupar recursos. Para construir casas sem necessidade de ar condicionado, nem no verão, nem no inverno, por exemplo, em muitas áreas da Índia ainda usamos barro e esterco de vaca dessecado, ao qual não falta também um valor sacral. Além disso, existem variedades de cereais – sobretudo arroz – capazes de sobreviver à irrigação com água salgada; e, por conseguinte, de matar a fome da população atingida por inundações ou ciclones. Já começamos a distribuir estas variedades nas zonas destruídas pelo tsunami, mas suas lavouras continuam reduzidas a pequenas reservas. É preciso tempo para difundi-las de maneira capilar, para que possam oferecer todos os seus benefícios ao homem e ao ambiente.
A senhora é laureada em física quântica e, no entanto, não parece ter particular confiança na tecnologia. Não pensa que a inovação possa ajudar-nos a tapar as perdas do tarro?
Estamos hoje habituados a considerar uma inovação como positiva, somente porque coincide com a descoberta de último grito. Mas nos enganamos. Às vezes os instrumentos tradicionais continuam sendo os melhores. E melhoraríamos muito a situação do ambiente, se aprendêssemos a inverter a hierarquia: em primeiro lugar não é colocada a última tecnologia, mas a aplicação mais útil para o homem e para a natureza com a qual o homem convive. Os OGM, por exemplo, representam a solução tecnológica mais avançada, mas quantos danos estamos criando à biodiversidade, à nossa alimentação e ao ambiente em seu todo?