Um mundo onde caibam muito mundos
Mari Almeida examina a política do governo para a "ocupação" da Amazônia
As imagens correram o mundo ontem: um grupo de índios isolados do Acre fotografado de um avião na região do rio Envira, enquanto lançavam flechas contra o aparelho do qual eram fotografados. Uma imagem apropriada da postura que os povos indígenas devem ter frente à “civilização”, segundo o sertanista José Carlos Meirelles, que completa seu raciocínio dizendo: “O dia que ficarem bonzinhos, já eram…”.
Esta imagem, forte, mostra que a Floresta Amazônica não é mata vazia, pronta para ser ocupada (e destruída) por pecuaristas, plantadores de soja, madeireiros e grileiros. A Floresta é habitada por muitos povos nativos que ainda sobrevivem isolados (68 só no Acre e sul do Amazonas), e que têm o direito de manterem-se afastados do contato com aqueles que sempre trouxeram sua destruição. Povos cuja defesa é a única verdadeira garantia de que a mata não será devastada, pois, entre outros motivos, não estão preocupados com a propriedade dessas terras, mas com seu uso sustentado.
Essa foto circula alguns dias depois de outro acontecimento muito divulgado pela mídia: em um debate em Altamira com índios do Xingu, um engenheiro da Eletrobrás foi ferido por um golpe de facão desferido pelos índios. O episódio ecoa outro, de quase 20 anos atrás, quando a índia Tuíra (que também participou deste debate) encostara um facão no rosto de outro engenheiro, em 1989, quando já se discutia com eles a construção da Usina de Belo Monte — justamente o tema do encontro de 2008 em Altamira. Trata-se de um gigantesco projeto hidroelétrico, planejado para gerar 11 mil MW, pouco menos que Itaipu.
O Subcomandante Marcos afirma que um mundo alternativo à globalização neoliberal tem que ser “um mundo onde caibam muitos mundos”. A defesa da biodiversidade é, como lembra Mark Sommer, inseparável da defesa da diversidade cultural. Vamos ter que voltar a isso muitas vezes nos próximos meses e anos, à medida que a demanda por produtos agrícolas cresce, o preço da terra sobe e o mercado busca tornar a floresta rentável segundo seus critérios mesquinhos — a saber, o que pode ser vendido; à medida que o governo Lula busca rasgar a região com grandes projetos de infraestrutura (estradas e hidroelétricas) para a exportação de matérias-primas e produtos agrícolas. À medida, por fim, que o Judiciário Federal coloca-se em posição cada vez mais retrógrada, defendendo a manutenção de quatro grileiros que agora produzem arroz nas terras indígenas da Reserva da Raposa Serra do Sol, em Roraima, amparados por militares nostálgicos do projeto do Brasil Potência.
A ofensiva é forte. Na medida em que cresce o preço internacional dos alimentos e matérias primas, figuras que antes podiam até ser consideradas marginais, como o governador de Mato Grosso, Mairo Blaggi, ou de Rondônia, José de Anchieta Junior, ganham peso político. Para o maior plantador de soja do Brasil, criticá-lo pelo desmatamento descontrolado em seu estado é “um grande preconceito contra a atividade de produção de alimentos”, disse em entrevista à última Carta Capital. Já o governador tucano de Rondônia afirmou, em palestra no Clube da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, em 29 de maio, que “essa política equivocada de demarcação de áreas indígenas esvaziando as fronteiras é um risco à soberania nacional. Índio não precisa de terra e sim de condições de vida”. Latifundiários dos grotões e o agronegócio estão buscando envolver os militares na sua cruzada contra a Floresta e os povos indígenas, dando conotações nacionalistas à devastação feita à ferro e fogo.
No Brasil como no restante da América Latina, a pressão da globalização neoliberal ameaça o modo de vida tradicional das populações tradicionais, com o mercado atropelando seus direitos coletivos. Essa é a raiz do crescente ativismo dos povos indígenas (e também dos quilombolas), que vemos agora no Brasil, na trilha da região andina. Na Amazônia estão sendo travadas batalhas decisivas para o destino do Brasil e do mundo, em uma luta que não admite visão estreita, exige a articulação entre o local, o nacional e o global e que carrega o potencial de se somar a disputa por outro modelo de civilização. E elas estarão presentes com força no Fórum Social Mundial 2009, que ocorrerá em janeiro do próximo ano em Belém do Pará.